Como diria Karen Müller, " esse negócio de passar greve em casa de pijama não dá, entende?" . Pois eu, como uma boa pupila, resolvi aproveitar o período em que a USP está parada e assistir
Minha Vida sem Mim lá no Shopping Gay Caneca.
Compro os ingressos, passo no mercado pra comprar uma bolachinha clássica, sento na minha poltroninha e aguardo o início do filme.
E eis que a criatura surge, subindo as escadas. Ele era meu número. Era meu número, na cor que eu queria, em liquidação, e eu ainda podia pagar em duas vezes sem juros no cartão. Ou seja, melhor impossível.
Me chamem de exagerada, mas tudo que minha mente conseguiu formular naquele momento foi: " Meu Deus, é o homem da minha vida! " E eu que nunca acreditei em amor à primeira vista.
- Senta do meu lado! Senta do meu lado! Senta do meu lado!
Ele sentou. Meu Deus, ele sentou! Pára tudo, ele sentou! Na mesma fileira, pulou umas
duas cadeiras, mas eu sei que foi só pra não ficar chato.
Como uma boa Mulher-Disney já fiquei pensando nos nomes dos nossos filhos. Mentira, não cheguei a tanto, mas o cara realmente me interessou. E eu pensei - Foi um sinal. Eu tinha que estar angustiada hoje, pra resolver vir ao cinema sozinha e encontrar com ele. Que homem!
E começam os traillers. Passa o primeiro, passa o segundo. Passa o símbolo da produtora. E antes que passe a primeira legenda ouve-se um sonoro SSHHHH pra que a tiazinha atrás de mim faça silêncio. E eu procuro de todas as maneiras acreditar que o SSSHHH não veio do meu lado direito.
Mas não deu. Ainda mais quando, depois de sei lá quanto tempo de filme e uns leves problemas com o pacote de bolachas ( admito, fiz barulho, mas não tinha abre-fácil e tava escuro, dêem um desconto! ) o 'Príncipe Encantado' me chama de lado e pede pra que eu faça menos barulho com minhas batatinhas, porque eu o estava incomodando. Respondi algo grosso e imbecil do tipo: Não são batatinhas, são bolachas!, e virei meus olhos pra tela bufando.
Afinal, estava provado. Era um Palhaço! Mais um. Nada muito novo, meu coração sempre foi um circo, mas é que essa doeu. Devia ter xingado. Devia ter colocado a mãe dele no meio. Mas não coloquei. E fiquei muito brava comigo por isso.
- Bom, já que não vou beijar, vou aproveitar pra brigar.
Amassei o pacotinho de bolacha pra jogar na minha sacolinha de lixo.
- Mas é uma sem-noção mesmo!
- Escuta, por que você não aluga o filme e assiste sozinho na sua casa? Já que você não sabe conviver com as pessoas e não tem um mínimo de tolerância...
- Isso aqui é um lugar público!
- Isso não me tira o direito de comer bolacha, se eu quiser!
- Ah, mocinha, volta pra sua jaula e fica lá sozinha...
- Ah, tenta ser feliz algum dia na vida...
E ele começou a resmungar coisas incompreensíveis. Ah, sim, eu não mencionei que ele ria
e fazia uns comentários consigo mesmo durante o filme, não é? Pois é. Ainda por cima psicótico.
Eu nem prestava mais atenção ao filme. Pensava coisas do tipo: será que sou eu que estou errada? Mas o lado bom dos Palhaços é que eles sempre se afundam sozinhos. E cinco minutos depois... sim, exatamente. Ele atendeu o celular. E conversou sei lá com quem por alguns segundos. E eu tive um acesso de riso. Devia ter jogado isso na cara dele, mas nem era preciso. O babaca deve ter percebido o papelão que causou. E saiu correndo assim que o filme acabou, antes que as luzes se acendessem, impedindo o meu tão sonhado embate final.
Agora, eu me pergunto: Por que, Deus? Por que você faz isso comigo? Por que me mostra o doce se depois vai tirar da minha boca? É um sinal, Senhor? Pra eu desistir de vez dos
homens, que são
todos uns palhaços mesmo? Deus, eu já te disse que eu até queria, mas
não rola, eu não gosto de mulher. Não adianta tentar me covencer do contrário. Então, por que, Deus? Por quê?
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E essa situação toda me faz pensar que eu deveria ser mais mal-educada. Minha mãe fez o trabalho bem demais. Não abriu espaço pra que alguém me estragasse. Acabou com toda a minha rebeldia. Talvez se eu tivesse sido criada pela minha avó, em um apartamento em Campinas, e passasse a infância empinando pipa no ventilador e roubando mangas na fruteira, talvez assim eu fosse hoje uma mulher revolucionária, e seria mais fácil ir contra o sistema e mandar um sujeito desses tomar no cu sem me sentir uma suja. Mas dizer um CÚ, com a(ss)cento, assim bem redondo, de boca cheia, e depois assistir o filme tranqüilamente sem sentir minha bochechas arderem nem pensar no que a tiazinha da fileira de trás está pensando a meu respeito, algo do tipo 'Ai, como é feio mulher barraqueira!'
E talvez assim acabasse esse nó eterno na minha garganta . Das milhares de coisas que eu
deveria dizer e não digo. Mas penso. E pensar me tem feito muito mal. Vou parar com isso até segunda ordem.
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Ah, sim. O filme é bom.
Benjamim, que eu fui ver no sábado, é legal também. Recomendo-os.